Autoridade não tem formato único

Autoridade não tem formato único

“Para ser grande, sê inteiro. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.”

Fernando Pessoa

Existe uma ideia que circula já faz um tempo, quase como verdade absoluta, de que só existe um caminho válido para construir autoridade, que é aparecer. E, aparecer significa mostrar seu rosto em vídeo, falando com desenvoltura, todos os dias. E quem não se encaixa nesse molde acaba concluindo, sem perceber, que carrega algum defeito a corrigir, que precisa treinar mais, perder a vergonha, se tornar outra pessoa na frente da câmera para finalmente merecer ser ouvido. Quando na verdade nem todo mundo se sente bem, coerente falando.

Muita gente se identifica escrevendo, elaborando devagar, revisando a frase até que ela diga exatamente o que precisa dizer. É importante entender que isso não é limitação nenhuma – é apenas outro jeito de organizar o próprio pensamento e, por consequência, outro jeito de comunicar. Tão legítimo quanto qualquer outro, ainda que a cultura das redes insista em nos convencer do contrário.

Quando alguém se compara ao formato que funciona para o outro, começa a competir num jogo que nunca foi seu. E a comunicação, que deveria nascer de dentro para fora, passa a se construir de fora para dentro, tentando imitar o ritmo, o tom, o jeito de aparecer de quem se admira, e o resultado, por mais bem produzido que seja, soa vazio, porque falta ali aquilo que só quem escreve ou grava poderia carregar consigo – aquele traço que não se copia porque não pertence a mais ninguém.

Ao longo da vida vamos nos identificando com quem admiramos, e esse processo, no começo, tende a ser total, mas depois, aos poucos, se torna seletivo, e como diz Judith Viorst, escritora norte-americana e pesquisadora formada pelo Instituto Psicanalítico de Washington, chega o momento em que dizemos: serei como esta faceta de você e não como aquela. E com a construção de presença acontece o mesmo movimento, pois não se trata de copiar por inteiro quem inspira, mas de reconhecer, entre tantas referências absorvidas ao longo do caminho, qual pedaço realmente conversa com quem se é hoje, depois de tudo o que se viveu e se tornou.

Uma das maiores confusões de quem está começando a construir presença é achar que autoridade se mede pela quantidade do que se mostra, quando na verdade a medida é outra, porque autoridade se constrói pela consistência entre o que se diz e o que se é, e essa consistência pode caber num texto curto, numa foto simples, numa frase bem escrita, sem precisar de rosto, sem precisar de vida exposta, sem precisar entregar intimidade nenhuma ao público que, no fundo, não está atrás disso, e sim de verdade.

Existe uma diferença entre esconder e escolher, sendo que esconder vem do medo, da tentativa de fingir que uma parte de nós não existe. Enquanto escolher vem da clareza sobre o que serve para comunicar a mensagem e o que pertence apenas à vida privada, e é perfeitamente possível construir uma marca sólida, reconhecida e respeitada sem nunca ter gravado um vídeo, contanto que aquilo que se mostra, do tamanho que for, seja verdadeiro e sustentável ao longo do tempo, sem exigir de quem comunica uma performance que não lhe pertence.

Sigmund Freud dizia que muito do que fazemos escapa ao nosso controle consciente e se revela justamente naquilo que consideramos sem importância, nos chamados isso de atos falhos que são pequenos deslizes e escolhas automáticas que carregam mais verdade do que qualquer discurso premeditado.

Com o jeito de comunicar acontece algo parecido, embora não seja bem assim, pronto e acabado à espera apenas de ser destravado. Ele existe em fragmentos espalhados, na mensagem longa que se escreve para alguém importante, na forma natural de explicar um assunto que se domina, no jeito como uma ideia se organiza quando não existe plateia nenhuma cobrando performance, e cabe a cada um reunir esses fragmentos e reconhecer neles um padrão que já é seu, mesmo sem nunca ter sido nomeado como tal.

É exatamente por isso que o Comunicando Você começa pelo autoconhecimento e não pela estratégia. Porque antes de decidir qual rede ocupar, com que frequência aparecer, que formato adotar, existe um trabalho mais profundo, que é o de se debruçar sobre esses fragmentos espalhados e entender o que, entre eles, pertence de fato a quem você é. Autoconhecimento não entrega um jeito de comunicar pronto na caixa. Entrega a matéria-prima, e é dessa matéria, reunida com paciência, que se constrói uma marca pessoal que não precisa ser inventada, porque ela já existe como um diamante que precisa ser descoberto para ser lapidado.

A tarefa, então, não é inventar um jeito novo de comunicar, e sim prestar atenção nesse que já está aí, tendo a coragem de sustentar em público exatamente aquilo que já sai natural em particular. Porque escrever, para quem escreve bem, não é uma alternativa menor ao vídeo, é simplesmente o lugar onde a voz sai inteira. E é essa inteireza, mais do que qualquer formato escolhido, que sustenta autoridade de verdade.

Ana Matos é terapeuta psicanalista, filósofa, escritora e mentora de carreira, com mais de 20 anos de experiência em atendimento terapêutico e especialização em autoconhecimento.

Realiza atendimentos online para brasileiros no Brasil e no exterior, auxiliando pessoas em questões como autoconhecimento, relacionamentos, ansiedade, depressão, luto, conflitos existenciais e desenvolvimento de carreira.

 

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