Quando a criatura começa a engolir o criador

Quando a criatura começa a engolir o criador

Construir uma marca exige escolhas. Escolhemos o que queremos comunicar, aquilo pelo que desejamos ser reconhecidos, a maneira como nos apresentamos, o que mostramos, o que preservamos e até quais partes de nós fazem sentido naquele espaço. Isso não significa necessariamente falsidade. Ninguém coloca tudo o que é em todos os lugares. A vida em sociedade também pressupõe algum grau de adequação, e uma marca, principalmente quando está associada a uma pessoa, precisa de direção, coerência e intenção. O problema começa quando aquilo que construímos para nos representar passa a exigir que nos tornemos aquilo que criamos.

A linha entre construir uma imagem e viver para sustentá-la

Existe uma linha bastante tênue entre construir uma imagem e começar a viver apenas para sustentá-la. Podemos compreender o que determinado espaço profissional exige, fazer os ajustes necessários, pensar estrategicamente a maneira como queremos ser percebidos e, ainda assim, continuar reconhecendo quem somos para além daquela imagem. O problema começa quando essas exigências deixam de fazer parte de uma construção e passam a determinar quem precisamos ser para continuar ocupando aquele lugar. Aos poucos, o que nasceu como uma escolha de posicionamento pode definir como devemos falar, o que podemos pensar, como precisamos aparecer, quais fragilidades devem permanecer escondidas e até quais mudanças já não nos sentimos autorizados a fazer porque poderiam contrariar aquilo que as pessoas aprenderam a esperar de nós.

É quase como construir uma casa para morar e, algum tempo depois, perceber que foi a casa que decidiu onde poderíamos sentar, quais cômodos poderíamos ocupar e quais portas nunca mais deveríamos abrir.

Quando aprendemos a repetir aquilo que é recompensado

As redes sociais tornaram essa fronteira ainda mais delicada. É possível acompanhar quase em tempo real aquilo que recebe aprovação. Uma determinada versão de nós gera mais engajamento, uma opinião é mais aceita, um comportamento é elogiado, uma estética funciona, um discurso encontra reconhecimento. E não há nada de errado em observar a resposta do público quando existe um trabalho sendo construído. O problema é o que fazemos com essa informação. Porque podemos ficar dependentes somente daquilo que é recompensado.

Ou seja, quando a recompensa é recorrente, fica cada vez mais difícil perceber se continuamos fazendo determinadas escolhas porque elas ainda nos representam ou porque aprendemos que aquela versão de nós funciona. O reconhecimento pode se transformar em uma espécie de espelho diante do qual começamos a nos arrumar todos os dias. O risco é passar tanto tempo olhando para o reflexo que agrada aos outros que já não sabemos o que existe quando nos afastamos dele.

Nesse ponto, a pergunta deixa de ser apenas “como quero ser percebido?” e passa a ser “quanto daquilo que faço ainda me pertence?”. 

Quando a marca começa a ocupar o lugar da identidade

Uma marca pessoal inevitavelmente tem seus recortes. Ela seleciona partes de uma pessoa e as organiza em uma narrativa compreensível para o mundo. Mas uma pessoa é sempre maior do que a narrativa que construiu sobre si mesma, ou seja, pode mudar de ideia, contradizer antigas certezas, descobrir outros interesses, cansar-se daquilo que um dia desejou, reconhecer que determinadas escolhas já não fazem sentido. O problema de transformar a própria marca em identidade é que qualquer movimento passa a parecer uma ameaça àquilo que foi construído. É nesse ponto que começamos a proteger a criatura.

Alimentamos aquilo que criamos, preservamos sua aparência, atendemos às suas necessidades, tentamos corresponder às expectativas que ela produziu e, sem perceber, podemos organizar a própria vida em torno de mantê-la viva. A criatura precisa continuar coerente, reconhecível, admirada. E o criador, que deveria poder transformá-la, passa a pedir autorização a ela para mudar.

É uma inversão perigosa: criamos algo para nos representar e depois começamos a nos representar para não decepcionar aquilo que criamos.

Quem continua ocupando o lugar de autoria?

Talvez por isso, e aqui a palavra cabe como dúvida, não como resposta, construir uma marca pessoal também exija a capacidade de suportar que nem todas as nossas transformações serão convenientes para ela. Em algum momento, aquilo que somos pode entrar em conflito com aquilo pelo que nos tornamos conhecidos. E permanecer absolutamente coerente com a imagem construída pode significar tornar-se profundamente incoerente consigo mesmo.

Não se trata de abandonar estratégia, posicionamento ou performance. Existe uma dimensão profissional que precisa ser construída e sustentada. A questão é saber quem continua ocupando o lugar de autoria.

Uma marca pode crescer junto com quem a criou. Pode acompanhar suas mudanças, amadurecer, ganhar outras formas e até abandonar versões que um dia fizeram sentido. Para isso, porém, é preciso continuar sabendo distinguir a casa daquele que mora nela, o espelho daquele que se olha e, principalmente, a criatura de seu criador.

Quando essa diferença desaparece, já não estamos apenas comunicando quem somos. Podemos estar aprendendo a ser aquilo que comunicamos.

Ana Matos é terapeuta psicanalista, filósofa, escritora e mentora de carreira, com mais de 20 anos de experiência em atendimento terapêutico e especialização em autoconhecimento.

Realiza atendimentos online para brasileiros no Brasil e no exterior, auxiliando pessoas em questões como autoconhecimento, relacionamentos, ansiedade, depressão, luto, conflitos existenciais e desenvolvimento de carreira.

 

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