A máscara que vestimos para comunicar

A máscara que vestimos para comunicar

“Nossa persona nos convence de que não há nada que desconheçamos a nosso respeito, de que somos, de fato, a pessoa que vemos no espelho.”

Debbie Ford

Você já parou para pensar que o que trava você na hora de aparecer raramente é falta de técnica? O que acontece é que costumamos culpar a falta de tempo, a falta de jeito com as redes, a falta de um roteiro pronto, mas por trás dessas desculpas prontas mora, quase sempre, outra coisa: a distância entre quem você é e quem você acredita que precisa mostrar para ser aceita.

Trabalhamos incansavelmente para criar uma fachada. Uma persona que nos garanta aprovação, que esconda o que julgamos inadequado, que edite tudo aquilo que, lá no fundo, tememos que afaste as pessoas de nós. Isso não começou com o Instagram, com o Youtube ou com o Linkedin. Começou muito antes, na nossa história, nas primeiras vezes em que aprendemos que determinadas partes nossas agradam e outras não. E fomos, sem perceber, nos fragmentando entre o que mostramos e o que guardamos.

O que no início parecia proteção, com o tempo vira prisão. Comunicamos, aparecemos, publicamos, mas de um lugar que não é inteiramente nosso. E quem está do outro lado, mesmo sem saber nomear o que sente, percebe a distância. Falta alma, essência na frase. Falta aquilo que só cada um poderia dizer do seu “jeitinho”.

Comunicar de verdade exige parar de fingir ser o que não somos. Segundo Debbie Ford, autora norte-americana que dedicou a vida a estudar aquilo que escondemos de nós mesmos, é somente quando já não sentimos mais necessidade de esconder ou compensar nossas fraquezas que conhecemos a liberdade de expressar o que realmente somos. Isso vale para a vida, vale para os relacionamentos, e vale, sem dúvida, para o que se escreve, se grava e se publica.

Isso não se confunde com se expor por inteiro. Vulnerabilidade não é vitrine e autenticidade não significa entregar cada detalhe da própria vida ao algoritmo. É bem mais simples e, ao mesmo tempo, bem mais difícil: que aquilo que se mostra, por menor que seja, nasça do mesmo lugar de onde a pessoa é. Uma frase curta dita de dentro comunica mais do que um discurso inteiro construído sobre uma imagem que se acredita precisar sustentar.

Quem constrói presença direto pela estratégia, sem passar pelo encontro consigo mesma, ergue algo bonito por fora e vazio por dentro. Funciona por um tempo, mas depois cansa. Cansa sustentar um personagem, cansa criar entusiasmo por um conteúdo que não representa nada do que se pensa quando se está a sós com os próprios pensamentos.

A pergunta que sustenta qualquer comunicação verdadeira não é o que postar. É quem se é quando ninguém está editando. E essa resposta não vem de nenhuma ferramenta de marketing. Vem de olhar para dentro, com a paciência de quem já entendeu que autoconhecimento não é evento, é processo, e como todo processo pede tempo, coragem e alguma dose de desconforto.

Presença é diferente de exposição. Presença tem intenção, tem limite, tem escolha consciente sobre o que se compartilha e sobre o que se guarda para si. Exposição, muitas vezes, é só reflexo, é preencher vazio, é tentar provar algo para alguém que talvez nem esteja olhando. A diferença entre as duas, mora exatamente onde a filosofia sempre insistiu em olhar: se a ação nasce de quem se é ou do que se acredita que deveria ser para não desagradar. Sartre já tinha nome para essa segunda escolha. Chamava isso de má-fé, o mecanismo de fugir da própria liberdade fingindo que a escolha nunca foi sua.

A marca, no fim, não é a soma dos posts. É o reflexo de quanto alguém já se permitiu se conhecer. Quanto mais nos encontramos, menos precisamos atuar. E é só aí, quando a máscara cai, que comunicar deixa de ser esforço e se torna, enfim, o que sempre deveria ter sido: a expressão do seu ser.

Ana Matos é terapeuta psicanalista, filósofa, escritora e mentora de carreira, com mais de 20 anos de experiência em atendimento terapêutico e especialização em autoconhecimento.

Realiza atendimentos online para brasileiros no Brasil e no exterior, auxiliando pessoas em questões como autoconhecimento, relacionamentos, ansiedade, depressão, luto, conflitos existenciais e desenvolvimento de carreira.

 

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