Ser, parecer ser e performance humana sustentável

Ser, parecer ser e performance humana sustentável

Não é difícil encontrar pessoas que, vistas de fora, parecem ter construído exatamente a vida que desejavam. São competentes, reconhecidas, ocupam bons lugares profissionalmente, administram muitas responsabilidades e aprenderam a transmitir a segurança de quem sabe o que está fazendo. Algumas se acostumaram tanto a ser reconhecidas dessa maneira que já não se permitem demonstrar cansaço, dúvida ou qualquer coisa que possa colocar em risco a imagem que construíram. O que quase ninguém vê é o esforço necessário para continuar correspondendo a essa imagem.

Vivemos em uma época em que somos estimulados a pensar sobre a maneira como queremos ser percebidos. Isso acontece nas redes sociais, mas não começou nelas e tampouco se limita a elas. Escolhemos o que mostramos, adequamos nosso comportamento aos diferentes ambientes, aprendemos códigos profissionais, entendemos o que determinado lugar espera de nós e, em alguma medida, fazemos isso durante toda a vida. Não há nada de errado em cuidar da maneira como nos apresentamos ao mundo. Seria até ingênuo imaginar que podemos viver sem considerar o olhar do outro. A questão começa a ficar mais complexa quando a pessoa precisa se afastar cada vez mais de si para continuar sustentando aquilo que os outros aprenderam a enxergar nela.

Quando a imagem começa a exigir além do que se consegue sustentar

É possível parecer muito seguro e conviver com uma insegurança que ninguém conhece. Continuar crescendo profissionalmente e já não encontrar o mesmo sentido naquilo que se faz. Receber reconhecimento por ser alguém que “dá conta de tudo” e perceber, algum tempo depois, que essa característica deixou de ser apenas uma qualidade e se transformou em uma espécie de obrigação.

Quem sempre foi forte pode encontrar dificuldade para dizer que não está bem. Quem construiu uma carreira baseada em grandes entregas pode sentir culpa quando já não consegue manter o mesmo ritmo. Quem passou anos sendo reconhecido pelo sucesso pode ter dificuldade até para admitir para si mesmo que aquilo que conquistou já não produz a satisfação que imaginava.

Você já parou para pensar que a imagem que um dia te ajudou a ocupar determinado lugar também pode começar a determinar você acredita que precisa continuar sendo?

E isso não acontece apenas na carreira. Acontece nas famílias, nos relacionamentos, nos grupos sociais e em praticamente todos os lugares nos quais aprendemos que determinadas características nossas são mais bem recebidas do que outras.

Vamos entendendo o que esperam de nós e nos adaptamos. O problema não está na adaptação. Está em passar tanto tempo respondendo ao que cada lugar espera que, em algum momento, já não seja tão fácil perceber o que ainda faz sentido para nós.

Nem toda alta performance é sustentável

Durante muito tempo, falar em alta performance significou falar sobre produtividade, disciplina, foco, metas, capacidade de execução e resultados. Tudo isso continua sendo importante. O que pouco se discutiu foi o custo envolvido em algumas formas de produzir esses resultados.

Uma pessoa pode trabalhar doze horas por dia, responder a todas as demandas, estar disponível para todos, assumir mais responsabilidades do que deveria e continuar entregando muito bem. Pode inclusive receber reconhecimento por isso. Quem olha de fora enxerga alguém altamente produtivo. Quem vive essa rotina talvez esteja dormindo mal, deixando relações importantes em segundo plano, ignorando sinais do próprio corpo ou vivendo com a sensação permanente de que ainda não fez o suficiente.

Durante algum tempo, é possível funcionar assim. Algumas pessoas conseguem permanecer durante anos. A capacidade humana de adaptação é enorme e nem sempre aquilo que conseguimos suportar é aquilo que nos faz bem. Há pessoas que só percebem o quanto estavam ultrapassando os próprios limites quando já não conseguem continuar. Até esse momento, muitas interpretaram o cansaço como falta de disciplina, o descanso como culpa e a dificuldade de manter o ritmo como uma falha pessoal.

Por isso, performance humana sustentável precisa incluir uma pergunta que os números não respondem: o que está sendo necessário fazer consigo mesmo para continuar entregando dessa maneira?

Duas pessoas podem alcançar resultados muito parecidos e viver experiências completamente diferentes para chegar até eles. Uma pode trabalhar muito porque encontra sentido naquilo que faz, consegue reconhecer seus limites e sabe por que escolheu aquele caminho. Outra pode alcançar o mesmo resultado movida pelo medo de fracassar, pela necessidade de provar que é boa o suficiente ou pela sensação de que perderá seu valor se deixar de corresponder às expectativas. O resultado pode ser o mesmo. A vida construída ao redor dele dificilmente será.

De quem são as metas que você persegue?

Há momentos da vida em que é importante revisitar aquilo que desejamos. Não necessariamente porque fizemos escolhas erradas, mas porque a pessoa que fez determinadas escolhas também mudou ao longo do caminho.

Uma meta pode ter feito muito sentido aos trinta anos e não representar a mesma coisa aos quarenta. Uma profissão escolhida em determinado momento pode continuar fazendo sentido, mas a maneira de exercê-la pode precisar mudar. Um lugar que durante anos representou sucesso pode deixar de ser desejado sem que isso transforme toda a trajetória anterior em um erro. Porém, o problema é que nem sempre nos permitimos rever aquilo que um dia decidimos querer.

Há também desejos que foram sendo incorporados sem que percebêssemos muito bem de onde vieram. O cargo que representa sucesso, o padrão de vida que deveria ser alcançado, a necessidade de crescer continuamente, a ideia de que parar de querer mais significa acomodação. Passamos tanto tempo convivendo com determinadas referências que elas começam a parecer nossas.

Conhecer a si mesmo também passa por essa revisão. Olhar para a própria ambição sem condená-la, mas tentando compreender o que a alimenta. Reconhecer aquilo que ainda é desejo e aquilo que se tornou apenas manutenção de uma identidade. Perguntar se o próximo passo está sendo dado porque existe vontade de seguir ou porque voltar atrás, mudar de direção ou simplesmente permanecer onde se está poderia ser interpretado como fracasso.

Quando parecer começa a ocupar o lugar de ser

Essa discussão também diz muito sobre comunicação e marca pessoal. Quanto menos uma pessoa sabe sobre si, mais precisa olhar para fora para descobrir como deveria se apresentar. Observa quem está conseguindo reconhecimento, quais discursos recebem mais atenção, que tipo de comportamento transmite autoridade, quais assuntos estão em evidência e como pessoas consideradas bem-sucedidas se posicionam. Não é difícil entender por que isso acontece. Quando faltam referências internas, as externas ganham ainda mais força.

Aos poucos, alguém pode construir uma presença profissional bastante convincente e, ainda assim, não se reconhecer inteiramente nela. Fala sobre assuntos porque acredita que deveria falar, adota uma linguagem que não utilizaria naturalmente, defende determinados valores porque combinam com o posicionamento escolhido e começa a administrar a própria imagem com tanto cuidado que qualquer movimento fora daquele personagem parece perigoso.

Isso explica por que algumas pessoas, mesmo sendo muito competentes, sentem um cansaço enorme quando precisam se comunicar. Não estão apenas pensando no que desejam dizer. Estão tentando preservar a maneira como desejam ser percebidas. Quanto maior a distância entre uma coisa e outra, maior o esforço para impedir que essa distância apareça.

Uma vida não deveria precisar caber dentro de uma imagem

Há profissionais que já não sabem se continuam desejando determinada carreira ou se apenas não conseguem imaginar quem seriam sem ela. Pessoas que conquistaram reconhecimento e passaram a depender dele para se sentirem suficientemente boas. Outras que chegaram a lugares que durante anos desejaram ocupar e descobriram que permanecer ali exige uma versão de si que já não conseguem, ou não querem mais, sustentar.

Nem sempre será necessário abandonar o trabalho, mudar de carreira ou começar uma vida completamente diferente. Muitas vezes, o que precisa ser revisto é a relação que se construiu com aquilo que se faz e com a imagem que se aprendeu a sustentar.

Performance humana sustentável não pode ser medida apenas pelo quanto uma pessoa consegue produzir, crescer ou suportar. Também precisa considerar se existe vida para além da entrega, se as escolhas ainda conversam com aquilo que se deseja e se o sucesso construído permite que a pessoa continue se reconhecendo dentro dele. Afinal, existe uma diferença entre saber se adaptar e passar a vida tentando caber.

Em algum momento, vale olhar para tudo aquilo que foi construído e se perguntar não apenas se deu certo, mas se ainda faz sentido para quem precisará continuar vivendo essa vida. O cuidado está em perceber quando deixamos de administrar uma imagem e começamos a viver para protegê-la.

Ana Matos é terapeuta psicanalista, filósofa, escritora e mentora de carreira, com mais de 20 anos de experiência em atendimento terapêutico e especialização em autoconhecimento.

Realiza atendimentos online para brasileiros no Brasil e no exterior, auxiliando pessoas em questões como autoconhecimento, relacionamentos, ansiedade, depressão, luto, conflitos existenciais e desenvolvimento de carreira.

 

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