Como continuar sendo quem você é enquanto constrói quem deseja se tornar?
Ao longo da vida, vamos construindo diferentes versões de nós mesmos. Algumas acompanham naturalmente nossas experiências, os conhecimentos que adquirimos e os lugares que passamos a ocupar. Outras vão sendo construídas a partir daquilo que aprendemos que deveríamos ser para conquistar reconhecimento, aceitação e pertencimento. Como viver em sociedade também pressupõe adaptação, nem sempre percebemos o quanto determinadas escolhas foram realmente nossas ou o quanto incorporamos expectativas que já existiam antes mesmo de começarmos a pensar sobre elas.
Isso também acontece quando decidimos construir uma carreira, desenvolver uma marca pessoal ou ocupar um lugar de maior visibilidade. Começamos a pensar sobre como queremos ser reconhecidos, quais características desejamos destacar, que imagem gostaríamos de transmitir e o que precisamos fazer para chegar a determinado lugar. Observamos pessoas que admiramos, buscamos referências, estudamos estratégias e aprendemos a nos apresentar de maneira mais adequada aos ambientes que desejamos ocupar. O que merece atenção é o quanto continuamos conscientes das escolhas que fazemos durante esse processo, porque uma imagem construída para nos representar também pode começar a determinar aquilo que acreditamos que precisamos ser.
Quando a criatura começa a conduzir o criador
No texto anterior, Quando a criatura começa a engolir o criador, refletimos sobre o momento em que a pessoa começa a modificar a própria maneira de existir para corresponder à imagem que construiu. Quem passou a ser reconhecido pela segurança pode encontrar dificuldade para demonstrar dúvidas. Quem construiu uma imagem de sucesso pode sentir que mudar de direção significaria decepcionar as pessoas que acompanham sua trajetória. Quem se tornou referência em determinado assunto pode continuar defendendo ideias com as quais já não concorda inteiramente, simplesmente porque foram essas ideias que ajudaram a construir seu reconhecimento.
Esse movimento nem sempre é percebido, principalmente porque muitas dessas mudanças acontecem acompanhadas de resultados positivos. A carreira avança, a marca ganha reconhecimento, novas oportunidades aparecem e tudo parece indicar que o caminho escolhido está funcionando. Mas o reconhecimento externo não responde sozinho às questões que dizem respeito à pessoa que está vivendo aquela experiência. Por isso, é importante que a construção de uma marca também seja acompanhada de um exercício permanente de consciência sobre quem está por trás dela.
O conhecimento amplia aquilo que conseguimos enxergar
Quanto mais restritas são nossas referências, mais facilmente podemos acreditar que a maneira como enxergamos determinada situação corresponde à única maneira possível de compreendê-la. Isso acontece com nossas opiniões, com as escolhas profissionais, com os modelos de sucesso que admiramos e até com a ideia que construímos sobre quem somos.
A leitura tem um papel importante nesse processo porque permite entrar em contato com pensamentos que não nasceram da nossa própria experiência. Um livro pode apresentar uma maneira completamente diferente de compreender uma questão que, durante anos, parecia resolvida. Pode nos aproximar de realidades que desconhecemos, questionar crenças que nunca havíamos examinado ou mostrar que aquilo que considerávamos uma verdade era apenas uma das interpretações possíveis.
Os cursos, as formações e os grupos de estudo também ampliam esse repertório. Quando entramos em contato com diferentes autores, teorias e pessoas que pensam de maneira distinta, precisamos examinar melhor nossas próprias ideias. Uma pergunta feita por alguém pode revelar algo que não havíamos considerado, assim como uma discordância pode nos levar a rever os fundamentos daquilo que acreditávamos saber. Aprender a sustentar uma opinião também envolve compreender seus limites e reconhecer quando encontramos argumentos melhores do que os nossos.
Isso merece atenção especialmente quando começamos a conquistar reconhecimento. Quanto mais alguém se torna uma referência, maior pode ser a dificuldade de encontrar pessoas dispostas a questioná-lo. Em determinados ambientes, a posição ocupada acaba produzindo uma espécie de proteção contra o contraditório. As pessoas concordam, evitam confrontos e deixam de apresentar percepções diferentes. Sem perceber, quem antes buscava aprender pode começar a conviver apenas com aquilo que confirma o conhecimento que acredita possuir.
Autoconhecimento também exige disposição para rever a própria história
Há uma parte desse processo que não se resolve apenas com a aquisição de novos conhecimentos. Podemos estudar muito, desenvolver competências e conhecer diferentes teorias e continuar repetindo determinados comportamentos sem compreender suficientemente o que nos leva a agir daquela maneira.
Uma pessoa pode saber que precisa estabelecer limites e continuar aceitando responsabilidades que não gostaria de assumir. Pode compreender racionalmente que não precisa agradar a todos e, ainda assim, sentir uma angústia enorme diante da possibilidade de decepcionar alguém. Pode construir uma carreira bem-sucedida e continuar dependendo do reconhecimento externo para sentir que possui algum valor.
A psicanálise nos ajuda a compreender que nossa relação com o mundo também é atravessada por experiências que nem sempre conseguimos reconhecer conscientemente. Aquilo que aprendemos sobre amor, aceitação, rejeição, autoridade e pertencimento participa da maneira como nos posicionamos diante dos outros e das escolhas que fazemos ao longo da vida.
Nesse sentido, a terapia pode oferecer um espaço importante para observar essas repetições, compreender os conflitos que atravessam nossas decisões e reconhecer o quanto algumas formas de agir continuam respondendo a experiências que já não correspondem à realidade atual. Da mesma maneira, uma mentoria pode ajudar a ampliar a percepção sobre a própria trajetória, identificar possibilidades profissionais e reconhecer dificuldades que nem sempre conseguimos enxergar sozinhos. São experiências diferentes, com objetivos distintos, mas que podem contribuir para ampliar nossa compreensão sobre nós mesmos e sobre os caminhos que estamos construindo.
O cuidado para que o desenvolvimento não se transforme em mais uma cobrança
Também precisamos observar a maneira como utilizamos todos esses recursos de desenvolvimento. Afinal, em uma sociedade que valoriza continuamente a produtividade e a capacidade de melhorar resultados, até mesmo o autoconhecimento pode acabar sendo incorporado como mais uma obrigação.
É possível transformar a leitura em uma cobrança por quantidade de livros, os cursos em uma necessidade permanente de acumular certificados, a mentoria em uma busca incessante por desempenho e a própria terapia em uma tentativa de corrigir rapidamente tudo aquilo que consideramos inadequado em nós.
A pessoa passa a se dedicar tanto ao projeto de se tornar alguém melhor que já não consegue reconhecer aquilo que construiu ou conviver com as próprias limitações. O desenvolvimento humano não acontece de maneira linear. Mudamos de opinião, revemos escolhas, encontramos dificuldades que acreditávamos ter superado e descobrimos outras à medida que a vida apresenta novas experiências. O conhecimento e o autoconhecimento podem ampliar nossas possibilidades de escolha, mas não eliminam as contradições que fazem parte da condição humana.
Quem continua escolhendo o caminho?
Construir uma marca pessoal exige escolhas. Precisamos pensar sobre aquilo que desejamos comunicar, como queremos ser reconhecidos, quais conhecimentos pretendemos desenvolver e de que maneira podemos tornar nosso trabalho conhecido. Mas também precisamos continuar examinando o lugar que estamos atribuindo a nós mesmos dentro daquilo que construímos.
Vale revisitar, de tempos em tempos, as razões pelas quais começamos determinado projeto. Observar se aquilo que comunicamos ainda corresponde ao que pensamos, se os objetivos que perseguimos continuam fazendo sentido e se estamos conseguindo reconhecer nossas próprias mudanças. Também vale prestar atenção à maneira como reagimos quando alguém questiona nossas ideias, quando cometemos um erro ou quando percebemos que precisamos rever uma posição que durante muito tempo defendemos.
Uma marca pode acompanhar o desenvolvimento de uma pessoa, amadurecer com ela, incorporar novos conhecimentos e assumir diferentes formas ao longo do tempo. Para isso, quem a construiu precisa continuar tendo liberdade para pensar, questionar, aprender e até abandonar aquilo que deixou de fazer sentido.
Ler, estudar, buscar orientação, fazer terapia, participar de grupos de discussão e conviver com diferentes perspectivas são maneiras de ampliar essa liberdade. Nenhum desses caminhos garante que estaremos livres de reproduzir expectativas ou de nos deixar conduzir pelo reconhecimento que recebemos. Mas todos podem contribuir para que continuemos examinando nossas escolhas e reconhecendo a influência que o mundo exerce sobre a maneira como nos constituímos.
Ao longo da vida, continuaremos nos transformando. As experiências nos modificam, os conhecimentos ampliam nossa compreensão e os encontros com outras pessoas também participam daquilo que nos tornamos. E, quando pensamos sobre tudo aquilo que estamos construindo para representar quem somos, é importante continuar fazendo a pergunta: quanto da pessoa que estamos nos tornando ainda corresponde às escolhas que conseguimos reconhecer como nossas?
Ana Matos é terapeuta psicanalista, filósofa, escritora e mentora de carreira, com mais de 20 anos de experiência em atendimento terapêutico e especialização em autoconhecimento.
Realiza atendimentos online para brasileiros no Brasil e no exterior, auxiliando pessoas em questões como autoconhecimento, relacionamentos, ansiedade, depressão, luto, conflitos existenciais e desenvolvimento de carreira.
Não deixe de se inscrever em nossa newsletter para receber todas as reflexões do Comunique você!